Ela disse sim, timida, encolhida, feminina, no meio de uma multidão escura onde só eles brilharam.
Ela disse sim, simples, desprovida, ingénua, porque o não nunca teria ali lugar.
Entrou naquele momento uma corrente que os fez flutuar , ele e ela tinham medo, mas já estavam suspensos, o desejo muitas vezes também é vontade e a vontade eleva.
Rasgaram a noite ali mesmo, no lado errado da razão.
Não havia chuva, nem vento, nem prosa, nem poesia, só ilusão. Ele e ela nunca se conheceram, mas parecia que se conheciam a vida toda. Ela fechou os olhos e ouviu o seu primeiro segredo, sussurrado nos corredores da escola, a primeira lágrima de solidão, ouviu a voz mudar na passagem para a idade adulta, conhece o seu perfume juvenil de cor, guarda numa caixinha do seu imaginário a imagem do seu mitico corte de cabelo "à tijela", esquiços de uma infância na década de 80.
Cresceram juntos, ele limpou-lhe as lágrimas, arrumou-lhe os medos, levantou-a quando ela não podia mais andar, também riu com ela, nos seus momentos grandiosos e também nos pequeninos, quando a simplicidade lhe enchia o coração de alegria. Ela foi sempre assim, emocional, sem o fazer notar, fria, sem nunca o ser, feliz, sempre que o quer parecer.
Queres ficar? Disse ela sem nada dizer, e ele respondeu o que ela queria ouvir, ou ela imaginou de novo. Vou ficar, disse ela, e foi então que a corrente acabou, deixaram nesse momento de flutuar, a ilusão desvaneceu.
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