eu nunca disse que te queria, mas tu vieste na mesma. era um sábado qualquer de um qualquer fim-de-semana de inverno, curiosamente estava sol na cidade que nós amamos, na cidade e no teu coração pois brilhavas como nunca antes. eu tinha umas calças de riscas da cor do teu casaco e um sorriso ensonado de quem trocou o melhor programa da semana, pequeno-almoço na cama com direito a dois filmes seguidos. tu vieste, porque quiseste, "porque me querias ver", escreveste numa mensagem estranha que eu não compreendia. e eu fui, reticente, mas curiosa com tão estranho interesse. devia ser uma da tarde, lembro-me de olhar para as horas porque não queria chegar atrasada, nunca fui dada a desfeitas. tinhas uma surpresa para mim e, surpresa das surpresas, eu não reconheci a surpresa, estava dado o pontapé de saída para um bom desentendimento. comemos. sempre gostei da partilha de refeições, de falar com quem gosta mais de ouvir. há uma coisa que sempre soube que fazia bem, falar de mim, sou uma faladora de banalidades, uma contadora de estórias, gosto das palavras e digo-as com prazer, gosto da palavra eu, acima de tudo, porque sou egocêntrica. Narciso ficaria ofendido e envergonhado na minha presença. tu estavas quieto, cauteloso nas palavras, observavas aqui e ali, a apreciar cada movimento. há uma coisa que gosto em ti, é a maneira como sempre olhas para tudo, do cabelo ajeitado até à cor gasta do verniz das unhas, observas com olhos fundos e deixas uma sensação boa. vamos voltar a esse dia. esse foi o dia um, o primeiro dia que te vi com olhos de verdade.lembro.me de te comentar nessa noite ao jantar, um amigo sem qualquer interesse para mim. nos dias seguintes senti-te tímido e inquieto e eu tímida e inquieta fiquei. eu sou assim, por vezes sofro de osmose sentimental, absorvo as emoções dos outros na ânsia de sentir coisas diferentes das minhas. os dias passaram, num abrir e fechar de olhos chegamos ao fim da linha. não durou muito tempo, apenas o tempo suficiente para não nos conhecermos. no último dia deixaste-me uma sensação amarga na boca. uma sensação de injustiça e de palavras por rebentar. senti-me ofendida, acima de tudo, ofendida. há uma coisa que não posso deixar de dizer, eu não estava a passar um bom momento e as várias ocasiões que te antecederam colocaram-me a um passo de me atirar do parapeito da amargura. a culpa não foi tua, foi tua e minha, mais tua do que minha. foste um bom jogador. ainda hoje és. eu não, não sei jogar, "jogar rouba-me a essência" disse eu há uns tempos à T, e ela franziu os olhos naquele ar grave de desacordo. voltemos a ti e ao teu jogo. tu sabes jogar, eu não, é elementar e é verdade. em contrapartida sou esperta e analiso em detalhe pensamentos e atitudes, já percebi que gostas das tomadas en passant do teu peão. e só por isso vou colocar a minha Dama a salvo no tabuleiro. desta vez podes vir, da mesma forma que vieste a primeira vez, entre sorrisos e amabilidades, eu agora estou à tua espera, podes vir, traz contigo todas as peças, traz a angustia nos olhos e o desamor nas mãos, podes vir, vem com toda a tua força, desta vez no final posso ser eu a dizer xeque-mate.