quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos pontos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
Vinicius de Moraes

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cresceste, és adulto. e agora? estás na casa dos 30 e tens a vida pela frente. um dia disseram-te que a vida começava aqui, quando ganhas dinheiro, tens projectos, começas a construir uma familia ao teu ritmo. é nesta altura que vês as primeiras linhas debaixo dos olhos, as olheiras, que antes significavam noites de copos mal dormidas, tornaram-se residentes. não dormes 12 horas seguidas ao fim-de-semana porque tens de aproveitar o dia. manter os minimos no frigorifico e na despensa exige sacrificio, e se aqui a questão não for dinheiro é de certeza o tempo que não tens. mas o pior não é isso, o pior é o medo, o medo da perda, é aqui que não podes fazer nada. primeiro os avós, os tios, os tios-avós que ainda restavam, os amigos que partem antes do tempo. o medo outra vez. os cabelos brancos não são um problema, nem as linhas debaixo dos olhos e no canto da boca, o problema é perder. é saber que não vai ficar tudo bem, um dia vai acontecer, e nunca estás preparado para isso. ver a dor dos outros e saber que um dia vai ser a tua. perder. perder o que não pode ser substituivel. de um segundo para o outro perder.