quinta-feira, 4 de abril de 2013

Ana e Emilia

Dizia-me sempre que eram muito amigas desde meninas, com aqueles olhos negros cheios da vida que outrora fora uma infância feliz. Dizia-me Ana, a amiga de Emilia, as minhas duas avós.
Imagino-as assim, as primeiras amigas, a partilhar segredos e a descobrir recantos, numa infância diferente daquela que foi a minha, sem brinquedos e sem fartura, mas plena de liberdade.
Não podiam ser mais distintas, pelo menos é assim que as recordo...Ana, pequenina, vestida de preto desde a morte do meu avô, chapéu de palha na cabeça, óculos de massa sempre tortos, alma bondosa, uma lágrima sempre pronta a cair pela desgraça e a miséria da vida humana... humana como ela, que viveu para servir a familia, os três filhos, quatro netos e duas bisnetas a quem nunca negou ajuda, sofreu sempre no seu silêncio enquanto rezava o terço deitada numa almofada de rolo. Lembro-me de Ana e de um dia pensar que era a pessoa de quem eu mais gostava no mundo, chamava-me "pomba branca" enquanto eu lhe ajeitava a trança comprida que usava presa no meio da cabeça com uma travessa...era uma velhinha linda esta minha avó, maldito o dia em que fechou os olhos para sempre.
Emilia, uma força da natureza, olhos espertos e cabelo grosso, coração de anjo, corpo roliço e cara larga, larga como o seu sorriso, um sorriso onde podia caber o mundo se olhássemos com muita atenção. Penso em Emilia e penso em mim, a mesma cara larga, cabelos aos caracois, olhos pequenos e uma lingeira curvatura nas sobrancelhas...um humor inesgotável para os intimos, passos vagarosos de quem sabe que tem tempo para chegar a qualquer lugar. Avó Emilia, dizia eu quando entrava pela sua porta, e ela aparecia como a figura de um anjo, e naquele tempo, o tempo parecia parar por ali. A minha avó Emilia era diferente de todas as avós, diferente da minha avó Ana, gostava da vida e de sorrir, era demasiado inteligente para pensar que a vida era triste e que temos de sofrer, igualmente bondosa, na sua casa cabia toda a gente, e o seu olhar era sempre de amor, o mesmo amor com que defendia o que sentia ser justo, e não tenho duvidas que o fez a vida toda. Emilia era adorada, não apenas por mim, era adorada por todos, pela familia, pelos vizinhos, pelos amigos e conhecidos, quem quer que tenha um dia cruzado o seu destino com o de Emilia sabe do que falo. Emilia não se esquece, Ana também não se esquece, Ana também adorava Emilia.
Há quem diga que sou parecida com Emilia, e não sei se é por eu o desejar muito que também penso que sim, por isso olho sempre para ela e depois olho para mim, na esperança de encontrar mais um traço de parecença, uma caracteristica única que seja só nossa, vejo-me envelhecer e penso no quanto gostava de ficar mais parecida com ela. Emilia e Ana morreram, estão no Céu, julgo que agora voltaram a passar mais tempo juntas, agora passam tempo com mais qualidade, o tempo que eu gostaria de ter tido para lhes fazer as visitas que não fiz, o tempo que eu precisava para beber o chá com elas ou apenas o tempo de mais um serão de novelas, de uma visita mais demorada sentada nas soleiras das portas onde a vida não passava, o tempo para adorar as minhas avós, as avós que agora não tenho. Lembro-me de Emilia e de Ana e fico com o coração apertado, devia ter-lhes dito mais vezes o quanto gostava delas, a calma que me deram, a estrutura e o exemplo que me mostraram,  devia ter-lhes dito que todos os dias que passei com elas foram importantes...acho que elas sabem, elas lá  no céu devem saber tudo o que penso. Emilia e Ana, as minhas adoradas avós, penso nelas e sorrio, ambas enchem o meu coração de ternura e alegria, ambas me deixaram cedo demais...mas fica para sempre um mundo de recordações.

Ouvir o eco da alma...

em palavras que não são tuas!