domingo, 17 de março de 2013

Momentos

Foi num desses habituais caminhos para casa marcados pelo silêncio incomodativo dos últimos dias, que ela ouviu na rádio aquela música que lhe agitava a alma. Não disse nada, apontou mentalmente o refrão e continuou a descobrir o caminho que já tinha feito vezes sem conta. Desde menina que adorava as viajens de carro, gostava de reparar nos novos pormenores em cada saída, era um divertiemento seu, e nesta viagem nada ia ser diferente.
Ele conduzia calado, perdido em pensamentos vagos, estava ansioso por regressar ao seu pequeno mundo, a um mundo do qual ela não fazia parte, ela sabia, por isso não disse nada.
Os acordes continuavam a subir no rádio, as luzes amarelas da noite iluminavam a cidade e, apesar disso, estavam ambos apagados dentro daquele carro. Chegaram ao estacionamento, uma despedida rápida foi a prova que os pensamentos estavam certos, ela saiu apressada, embora não tivesse ninguém à espera, correu pelas escadas e entrou o mais rápido que conseguiu em casa. Chegou ao quarto, a cama estava feita e a roupa meticulosamente dobrada, sinais do capricho de uma mãe zelosa, pegou no velhinho computador e sem pensar mais nada pesquisou na esperança de ouvir o que tanto queria. Não encontrou nada, talvez tivesse percebido mal a letra, o que pretendia não estava em lugar nenhum. Pegou no telefone e escreveu-lhe uma mensagem:
- Sabes quem canta aquela musica que vinhamos a ouvir na rádio?
- Se for a que estou a pensar é Beach House, ouve o album, é muito bom.
- Obrigada, é isso mesmo.Beijo
Ele gostava de musica, foi a primeira coisa que ela gostou nele.
No minuto seguinte a voz daquela mulher já ecoava na casa...afinal tinha percebido mal a letra, mas era ainda melhor do que ela pensava. Não voltou a deixar de a ouvir.
Desde esse dia até hoje muitas coisas mudaram para ambos, suponho. Uns dias mais tarde os pensamentos ganharam forma de palavras, embora poucas, e a vontade de que alguma coisa boa resultasse nunca teve força suficiente, não era possivel, não havia ligação, demasiados silêncios nem sempre são bem vindos.
Hoje, ao ver a mulher poderosa cantar essa mesma musica ela voltou atrás no tempo e recordou com clareza aquela viagem, a fragilidade que sentia nesse momento, o receio de deitar o nada, que ela julgava muito, a perder. Chegou à simples conclusão de que entre as coisas boas e  menos boas, embora vagas e distantes, há sempre algumas que ficam...Ela escolhe a música, ela escolhe sempre a música, o Prozac dos momentos, o baú sonoro dos segredos, o pilar da disposição, como gosta de lhe chamar. A noite de hoje foi a prova disso, ela agora sabe.

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